segunda-feira, 28 de outubro de 2013

28/10 - Rotterdam

Mais um dia trivial hoje, entre ficar o tempo todo se debatendo contra a chuva que ia e vinha, alternando-se com momentos de sol igualmente intenso, longas caminhadas em busca de lugares mencionados no Tripadvisor aparentemente em 1850, e que já nem existiam mais, e jantar no buffet do Pizza Hut, pra agora passar uma semana culpado e sentindo asco de mim mesmo.


Rotterdam é bacaninha, ampla, moderna, de bela arquitetura, meio como uma São Paulo se você subtrair uns 25 graus centígrados da temperatura, 80% do trânsito e adicionar olhos claros a 90% da população e gostosice a 95% das mulheres. É tudo o que Amsterdam gostaria de ser se não tivesse aquele monte de casinhas antigas e ruas estreitinhas para emporcalhar seu urbanismo. Não sei se ainda não passamos pela vizinhança correta, mas, por enquanto, há uma criminosa ausência de coffee shops por aqui, coisa que também notei em Den Bosch, e quase também em Eindhoven. Mas é bom.... Assim, a única droga com a qual gasto meu dinheiro é o croquete da Febo, outro de meus esparsos e episódicos prazeres que apenas a Holanda pode proporcionar.


E, quanto à pança, tenho resistido firme e forte à minha vigorexia forçada, e, na base do só por hoje, já estou sem fazer qualquer exercício há 3 semanas. Sem prejuízo à repulsa que sinto por qualquer forma de atividade física, dá uma invejinha dos corredores que vejo passando pela orla do porto, sinto uma estranha e ambígua tentação de vestir toda a indumentária de corrida que veio comigo e ir atrás deles, mas aí respiro fundo, como mais um croquete e espero a vontade passar. Todo o alongamento que passei os dois últimos anos dolorosa e bobamente cultivando jå foi pro saco, e atualmente mal alcanço os joelhos quando tento me abaixar.
É o ciclo da vida besta: a gente passa um tempão construindo algum condicionamento físico para então sair de férias, perder o que construiu, depois voltar à vida cotidiana e retomar o treinamento para recuperar o que perdeu e poder sair de férias no ano seguinte para reprisar tudo de novo. Até que a vida nos abandona e o o carbono que nos constitui vai parar em algum outro ser vivo que, por algum tempo, será escravo do mesmo vão processo. Ah, são tão necessárias as coffee shops para entorpecer a dor de existir...



domingo, 27 de outubro de 2013

27/10 - 's-Hertogenbosch

Ah, estes "bed and brekfasts", na verdade estratégia vernacular para dar alguma densidade ao conceito de o cara cobrar uma graninha legal pra alugar um quarto vago em sua casa, sair para cuidar da vida, e os hóspedes que se virem para entrar no lugar. Pela manhã, ainda fomos salvos pela faxineira, que abriu a porta, permitiu que deixássemos as mochilas no quarto, mas disse não saber falar inglês, apenas um pouco de holandês. Ao conversarmos entre nós em português, descobrimos que a pobre coitada se chamava Lúcia, era imigrante daquela região da Bahia chamada Ceará, e nos contou sua história padrão sobre ter se casado com um holandês que foi ao Brasil a turismo, e então sido trazida para cá por ele.
Fiquei pensando como ambos conversavam ou conversam, já que o sujeito obviamente não fala português, e ela, no início, nem rudimentos de holandês dominava. Algumas pessoas falam mais de duas línguas e não conseguem se comunicar, mas apenas se desentender o tempo todo. A outras, basta a língua do amor. Ou, sei lá, a cunilíngua do amor, mais propriamente.


À tarde, ao sapear pela cidade, esbarramos por um desfile de 7 de setembro em pleno 27 de outubro, e feirinha de exposição do exército numa praça da cidade, com direito a degustação e distribuição de amostras de rações usadas pelos militares durante suas missões de espantar bêbados das ruas ou orientar os pedestres a atravessar só pela faixa. De qualquer modo, enchi os bolsos, e garanti uns dois jantares na faixa, às custas das forças armadas holandesas.


Na volta ao hotel, dito e feito. Porta trancada, nem notícia do imbecil dono do local, apenas uma nota grudada na porta, à moda do Samba do Arnesto, pedindo que ligássemos para ele para conseguir o código de acesso. Como se todo mundo andasse com um celular habilitado a fazer ligações para a Holanda dentro da mochila. Por sorte, deu pra parasitar um sinal de internet de uma pizzaria próxima, e a patroa tem crédito no skype. Mas é sempre o cu na mão.


E, pra fechar a noite, cinema com o filme do Stallone e Schawrzenegger. Finalmente, sem dublagem. Não que, neste caso, os diálogos façam muita diferença.


sábado, 26 de outubro de 2013

26/10 - Dortmund



Até o mais novo mico da noite, o dia foi prosaico, almoçando mais uma vez a gordurenta comida local, visitando o gratuito museu local da segurança no trabalho. Parece um tema meio apelativo da falta de criatividade para assuntos, mas lembremos que em São Paulo temos algo como o museu da língua portuguesa. Visitar museuzinho depois do parque de ontem parece algo regressivo. As exibições até pareciam bem feitinhas, interativas, mas não tem como comparar com toda a exuberância kitsch de um ambiente de espera de montanha russa do Jimmy Neutron.



Tive também finalmente o dia em que a verdadeira coloração de minha alma foi imortalizada num copo de café do starbucks, e, mais uma vez, Aderbal, o homem do saco corrosivo, fez seu estrago cumulativo em mais uma pobre calça jeans. Agora, tenho ventilação natural nos países baixos, sem custo adicional.





E então, o programa da noite: versão local de O Violinista no Telhado, musical por cuja trilha sonora passei a vida inteira desinteressado a cada vez que a via na loja de discos, não sendo os arranjos da música feitos por John Williams motivo suficiente para me inspirar a comprá-la. 
Mais uma vez, como diz Paulo Coelho, é importante reconhecer os sinais, e não estou falando de espinhas. O título original, Anatevka, estava lá, estampadão em primeiro plano, com o título americano entre parênteses. E dito e feito: tudo falado em alemão, cantado em alemão, e devidamente incompreensível. Restou uma boa música e razoável coreografia, ainda por cima sob um calor de fritar ovo, pois por alguma estranha razão o condicionador de ar da Ópera não havia sido ligado.
Cara, e isso é Alemanha. Imagina como vai ser na Ucrânia e Turquia.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

25/10 - Bottrop (Movie Park)

E hoje é dia do meu outro ritual anual. No meu primeiro maneirismo, me torno um religioso, ou ao menos um herege em pele de crédulo, e dou aquela comidinha gostosa e sensual no corpo de Cristo. Assim, chegando silencioso e insidioso por trás, quando ele menos está esperando. Já fui católico em vários anos, fui crente ao menos uma vez na vida, e botei Cristo na boca ao som de black gospel numa igreja de negão.
Hoje, desafiando o que vejo no espelho e sinto na alma, me torno criança por um dia, e aquele senhor flácido, com barba esbranquiçada, entradas na testa e meio brocha dá lugar a um senhor flácido, com barba esbranquiçada, entradas na testa e meio brocha dentro de um carrinho de montanha russa. Fomos ao Movie Park, nome pouco inspirado para a versão alemã da Eurodisney. De cuja existência ficamos sabendo lendo o guia da Alemanha pirateado da internet, meio sem querer. O custo foi abrir mão de visitar Essen, mas deixo a algum outro brasileiro a tarefa de grudar um chiclete embaixo de um banco de praça ou igreja qualquer para marcar nossa presença.



E como é necessário muito talento para se foder o tempo todo, o dia começou bem. Ao comprar os bilhetes de trem até o local, que teriam nos custado uns 42 euros, mencionei por acaso nosso destino à vendedora, que disse então haver um bilhete integrado para o transporte mais o parque, que praticamente deixou o trem de graça. Não que faça muita diferença, porque raramente os cobradores têm vindo verificar se os compramos.



O dia correu com uma garoazinha chata na maior parte do tempo, mas sem maiores transtornos. O parque começou dignamente vazio, deu uma enchidinha um tempo depois, e, ao meio-dia, vaticinei que provavelmente a lotação do dia havia se estabilizado, dado que provavelmente ninguém chegaria já depois do almoço para pagar o mesmo e se divertir por menos tempo. Mas estava enganado. Ao longo do dia, aquilo foi ficando cada vez mais cheio de gente, como se fosse a lista de adolescentes que frequentaram o corpo da Ana Maria Braga com o passar dos anos. Às 8 da noite desistimos de nos acotovelar com os outros frequentadores nas ruas do parque, e muito menos pegar filas de hora e meia para dar uma voltinha de pouco mais de um minuto em algum brinquedo, e voltamos pro hotel. Saldo: 19 voltas nas várias montanhas-russas e congêneres. Provavelmente menos do que meu recorde de outros carnavais, do qual não me lembro de cór, e certamente muito menos que certo número cabalístico cuja referência descontextualizada neste blog não fará o menor sentido aos não-iniciados, mas me permitam ser obscuro aqui e ali.



E o enjôo ao ser chacoalhado de cá pra lá e virado de pernas pro ar é cada vez maior ano após ano... Assim como boa parte dos suficientemente idosos desenvolve intolerância à lactose, meu metabolismo também deve vir desenvolvendo uma progressiva intolerância a parques de diversão, me condenando a ser cada vez mais um velho que sai de férias para frequentar congressos, e não montanhas-russas.



Ah, e enquanto eu batalhava para não gorfar meu café da manhã na cabeça de algum alemão ao meu lado, desenvolvi minha mais nova teoria inútil: os parques de diversão são uma sublimação do nobre e legítimo ato de se masturbar. Vejam bem: os nomes e temas dos brinquedos variam, a decoração é contingencial, mas, em essência, todos os brinquedos se limitam a girar, chacoalhar, ir e voltar, ou entrar em algum túnel escuro e úmido. Lembra alguma coisa?


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

24/10 - Dortmund



E, enfim, dado o sufoco com os hotéis a preço absurdo, Dortmund, que seria a cidade onde daríamos uma passadinha, a partir de Essen, virou nossa sede pelos próximos 3 dias. E Essen dançou, por motivo que relatarei no post de amanhã. Se eu não fizer algum suspense, como posso garantir a não-atenção de meus não-leitores que não voltarão aqui para ler minhas bobagens do dia seguinte?



E hoje, apesar do sol e do friozinho gostosos e de a cidade ser bem passavelzinha, foi o dia que não aconteceu. Após chegar no hotel bacaninha, almoçar pizza de praça de alimentação e comer, de sobremesa, um sorvete sabor Red Bull (!), fomos a mais um museu da resistência contra o nazismo, fechado sei lá por que por toda a semana. Por ser do lado de um cinema de 14 salas, decidimos terminar o dia com uma ficção que acaba de estrear, e cujo cartaz havia me chamado a atenção...



17 euros e algum tempo de espera depois, a tragédia que dias de televisão ligada já deviam nos ter permitido antecipar, e os 40 minutos de trailers dublados até o início do filme só foram desesperadoramente confirmando: também tudo dublado, e devidamente incompreensível. Puta dinheiro enfiado no schawnz. Até aí nessa terra de índios de vocês os filmes são legendados, exceto no Shopping Osasco, que já é frequentado por, digamos assim, uma gente diferenciada. E imagino que na Ucrânia e na Turquia a coisa não vai ser mais animadora....


23/10 - Düsseldorf

E hoje, finalmente a mochila foi pro espaço. É isso que dá comprar a mais baratinha na rua Direita, e não uma da Ermenegildo Zegna. Dei um tapa, costurando com um clipe de papel e bastante fio dental, mas esta merda ainda vai dar trabalho até o final da viagem. E já não cabia mais nada dentro, mesmo antes de comprar os tradicionais presentinhos para fazer a lubrificação social de sempre, ou dos remendos, que a deixaram ainda menor. É como na doença de Peyronie... Costurou, a coisa encurta, não tem jeito. 



Hoje os dois programas principais foram concertos em igrejas diferentes do festival internacional de órgão que a cidade está abrigando. Mas reluto em acreditar que por isto os hotéis estivessem tão caros. O primeiro foi meio bosta, dada a pouca inspiração dos compositores contemporâneos desconhecidos, a média etária do público ainda mais geriátrica do que minha própria idade e o fato bisonho de o cara ficar lá no alto, atrás da gente, escondido atrás daquela caixa, enquanto a platéia fica só voltada para a frente, olhando para um crucifixo estático, enquanto nada acontece, e jesus nem dá uns gritos de dor ou uma sangradinha pra animar um pouco as coisas. 



O segundo padecia das mesmas vicissitudes, mas o repertório foi melhorzinho, e os arranjos tinham acompanhamento de marimba, e mesmo peças solo para ela, com o carinha tocando lá no altar, e valeu bem a pena. Trechinhos disponíveis no facebook.




O quarto do albegue até tinha banheiro privativo sim, mas a internet era paga, então nada feito, e a única coisa que dá pra assistir em inglês na Alemanha continua sendo o noticíario, porque todo o resto são canais locais, e os filmes, dublados. Imagina na copa.



terça-feira, 22 de outubro de 2013

22/10 - Düsseldorf: o fim da romaria



Algumas pessoas vão a Santiago de Compostela.  Outros vão a Lourdes. Outros ainda, a Meca. Alguns, já um pouco mais sensatos, peregrinam a Graceland. E alguns, bens poucos, mas os melhores, sentem-se compelidos a  responder ao menos uma vez na vida a um chamado bem diferente. Era algo que há décadas eu devia a mim mesmo, e finalmente pude cumprir hoje: cheguei às portas do que até há uns 3 anos foi o Kling Klang Studio, local mítico e mágico onde desde o início da década de 70 o Kraftwerk produziu o que de mais sublime já foi feito em matéria de música, até o surgimento dos Cocteau Twins, quando então passou a ocupar a posição de vice-liderança, no sagrado triunvirato cuja terceira colocação Philip Glass e Wim Mertens disputam há muitos anos. Agora já posso morrer em paz, sem medo de despertar após meu flato final num purgatório onde só toca sertanejo universitário.



A fantasia que eu fazia de Düsseldorf, certamente pela associação com as bandas de Krautrock, era de um lugar frio, nublado, mecanizado, com os bondes passando pela gente ao ritmo constante de uma batida 4/4... Ainda tento imaginar que talvez há uns 30 anos, e mais lá pela época de janeiro, tenha sido assim, mas o que encontrei foi outra cidade colorida, bonitinha, menos provinciana e maior do que Bonn, mas igualmente simpática. Nada de chuva hoje, mas acho que a temperatura passou dos 25 graus, merda. E não tinha nada programada na Ópera, só show do Bob Dylan, que não chegou a interessar.



Em compensação, hoje também é o ponto baixo da viagem, em outro aspecto. Dada a dificuldade de encontrar um quarto de hotel a preço não-pornográfico para esta noite, tivemos que regredir à nossa pós-adolescência e vir parar num quartão coletivo de albergue, com outros quatro estranhos, sem privacidade e, até o momento, sem nenhuma turista sueca transitando só de calcinha pelo aposento. E, quando eu tinha uns 25 anos, meu único grande barato ao ficar neste tipo de lugar era espiar as moças tentando trocar de roupa discretamente, torcendo para que estivessem todos dormindo.
Amanhã fica um pouco menos ruim, com hospedagem também em albergue, mas ao menos com quarto privativo.



segunda-feira, 21 de outubro de 2013

21/10 - Köln



A boa notícia é que, ao contrário da previsão do tempo, não choveu. Ao preço de um calor de uns 17 graus. Mas, a rigor este foi meio um dia que não aconteceu, limitado a atividades mais triviais, como andar pela cidade, procurar coisas interessantes para comer.... Nada muito diferente da rotina nossa de cada dia em SP, mas sem o trânsito e com uns 20 graus a menos.



A má notícia é que o que seria o grande programa de hoje, concerto da Filarmônica de Colônia tocando Carmina Burana e músicas de cinema, estava pateticamente esgotado. Desta vez, sem nem mesmo aquele lugar caro de uns 35 euros pra escolher. O plano B, ou nem isto, era o show do Depeche Mode, mas, a 70 euros por cabeça, não tivemos coragem. Restou então ir pegar um cinema à noite, pra não nos sentirmos completamente derrotados, pagando 11 euros (o que nem é tanto), para ver o qualquer filme que estivesse passando. Nem foi ruim, mas dava pra ter baixado de graça da internet. 'O Mordomo'. Não sei se vai ser exibido no Brasil. Nota 6 no índice Adercine.



Ontem à noite foi o dia do pânico, tentando reservar hotéis para os próximos dias da viagem, e não encontrando nada por menos de 330 euros a noite... O grande erro da viagem por enquanto foi achar que daria certo ir reservando tudo meio em cima da hora, como funcionou tão bem ano passado nos Estados Unidos. mas portanto amanhã rola um albergão selvagem, e a ordem das cidades visitadas ficou um pouco lusitana, mas depois conto melhor.


domingo, 20 de outubro de 2013

20/10 - Köln : meu dia de herege



Pela manhã, depois de uma narcoléptica cochiladinha num banco de praça público e da fuga de uma pancada de chuva, visitamos o museu da Gestapo, onde o pau comia.... Não pude deixar de pensar no Zé Dirceu e no destino que dele, muuuuuito lentamente, se aproxima... Mas isto logo foi substituído por emputecimento porque a anta do cobrador errou no troco, e nos fez perder ainda um euro a mais além dos 13 já excessivamente desperdiçados para, afinal, não ver muito além daquele monte de fotos dos pobres coitados que foram pro forno.



À tarde, enquanto almoçávamos a inevitável bratwurst num pãozinho duro desleixadamente submetida a uma esguichada de mostarda, a dona do restaurante viu a garrafinha de coca-cola amassada dentro do cinzeiro da mesa dela, pronta para ser jogada fora, e, se bem me lembro,  rosnou literalmente "bagel, das Reh, das Fuck Off das Geld wert, leihen Sie sich ein grana zurück wenn obliegen-la ..." . O tradutor do google me ajudou a entender que aquilo significava algo como "Cacete, seus veados, esta merda vale dinheiro, você pode pegar uma grana de volta se devolvê-la...." E lá fui eu, feliz e contente, todo pimpão, recuperar umas moedinhas sonháticas de volta e ajudar a salvar o planeta...



Em seguida, fui me dedicar a meu sagrado ritual anual de reconexão com a transcendência, assistindo a uma missa em algum lugar durante minhas férias, recobrando minhas energias espirituais e me alimentando com o corpo de Cristo, que é diet e tem apenas umas 15 calorias por porção. A bola da vez foi a catedral de Köln, porque santíssima trindade na hóstia dos outros é refresco... Enquanto esperava minha vez lá na fila, como um cubano que aguarda por sua cota  de açúcar, um educado rapaz atrás de mim me deu aquele toque religioso-cidadão: "que tal você tirar o chiclete da boca?" . Constrangido, não tive como fazer outra coisa além de guardá-lo no bolso e, posteriormente, grudá-lo sob o banco da igreja. E então, ui, comi com gosto o corpo de Cristo! Jesus tem envelhecido bem... Tem já uns 2000 anos de idade, e permanece sequinho, durinho e crocante..... Mas, mesmo sendo o filho de Deus, continua tendo um gostinho de farinha....



sábado, 19 de outubro de 2013

19/10 - Bonn

Aproveitando hoje o último dia de sol segundo a previsão do tempo, que não tem falhado até o momento. De acordo com ela, agora sem chuva só a partir da segunda à tarde.



Pela manhã, fomos até a casa onde nasceu Beethoven, para tirar fotos na frente da porta, e economizar os 10 euros da entrada. Ao contrário de Salzburg, a beethovenmania aqui dura apenas um quarteirão, e não rende chocolates Beethoven, supositórios Beethoven e enemas anais Beethoven, como com sua congênere.



À tarde, não deu pra escapar de pagar o ingresso, e lá se vão 10 euros para entrar no museu de história natural. Teria sido um programinha digno se gratuito. Tendo que pagar, a gente consegue evitar menos a sensação de que torrou uma grana só pra ver uns bichos empalhados e, no final das contas, e daí? 
Vendo uns sapinhos e lagartixas no aquário, não pude deixar de viajar na analogia: que condição têm eles de apreender o conceito de cativeiro, quanto e de que modo conseguem saber que não estão em seu habitat natural, mas a mercê do dono do museu que cobra 5 contos dos incautos que vêm bater no vidro para tentar fazê-los se mexerem.... talvez nós também sejamos prisioneiros de um grande zoológico cósmico, e nossa angústia existencial, aquele ruído de fundo que nos faz sentir que algo está fundamentalmente fora do lugar, seja o mais próximo que consigamos chegar de nomear este deslocamento. Mas não. Como disse Kundera, é só a insuportável leveza do ser mesmo.



E à noite, a apoteose: uma montagem estilo meio M Officer de Jesus Christ Superstar na Ópera de Bonn... Escorchantes, inacreditáveis e aviltantes 35 euros, e nem seria assim minha primeira opção de musical para assistir ensandecido de contentamento por nele ter esbarrado por acaso. Mas foi o mais próximo disto, então tava valendo.
Escutei a versão original umas 2 vezes na vida, sem grande entusiasmo, e em meu conceito Andrew Lloyd Webber meio que continuava sendo assim o José Sarney do mundo dos musicais. Não escutei Evita e nem pretendo, mas, enfim, o libretista é Tim Rice, que começou fazendo o rascunho com estes dois musicais, depois um pouco melhor com as letras de 1984 do Rick Wakeman... enquanto, paralelamente, as óperas passaram quinhentos anos amadurecendo, evoluiram para os musicais.... enquanto, lá na Suécia, Benny e Björn também praticaram bastante naquele grupinho com duas moças vagamente gostosas.... e tudo isto finalmente convergiu em Chess, tudo aquilo que, já que estamos na terra de Beethoven, Fidelio sonhou em ser um dia quando crescesse. 
Mas gostei do que escutei. Até que a música também é boa, faz bom uso da noção vagneriana de leitmotif, a cenografia que parecia que seria meio pobrezinha de início surpreende em alguns momentos. Tudo posto, não me arrependo.



P.S. 1: E como já mencionei, meu amigão Tim Rice é o letrista das músicas de meu mais novo CD, 'ChessDerbal', que está atualmente no forno, e deve ficar pronto em tempo para ser presenteado para uma dúzia de coitados no natal. Pobres vítimas, vão deixar de ganhar algum cacareco mais útil, e além de ter que fazer de conta que existiu um Jesus Cristo que nasceu para nos salvar do pecado original e blá blá blá, ainda vão ter que fazer de conta que escutaram e gostaram de meu CD. Os dois primeiros, 'AderElton JohnBal' e 'Aderbal Horror Picture Show' já estã esgotados, quem ganhou, ganhou, e quem não ganhou tem muita sorte. E todos vão valer uma grana fodida no eBay daqui a uns anos.



sexta-feira, 18 de outubro de 2013

18/10 - Bonn



E, como diria George Harrison, aí vem o sol. De todas as cidades até agora, Bonn me pareceu a mais charmosinha, e certamente isto tem muito a ver com poder andar pelas ruas sem ter que ficar correndo da chuva, e conseguir sentar numa mesa de praça e não comer a merda da comida que não deu pra pedir porque os cardápios estão todos em alemão e por aqui a moçadinha fala ainda menos inglês do que já falava nas cidades maiores e mais turísticas. 



À tarde, as agruras dos semi-monoglotas continuou, com a visita a gratuito museu da Alemanha pós-segunda guerra mundial. Interessantezinho, mas sem uma palavra traduzida do original, então a gente ficava lá, tentando dissimular com aquela cara de compenetrados, enquanto os guardinhas sacavam que não estávamos entendendo lhufas.



À noite, programinha bem legal, não só por ser gratuito: uma jam session com instrumentistas exóticos de vários lugares recônditos do planeta, e dançarinos idem. Foi longe, durou pouco, mas até dei uma entrevista para uma jornalista da Deutsche Welle, meio como o O Globo local, que me perguntou o que achei do evento.... Ah, a imprensa, que nem aqui longe me dá sossego...




17/10 - Liège



E continua a odisséia do desperdício de vida, de férias e de saco passando o dia inteiro fugindo da chuva. De todos os constantes dias chuvosos até agora, este foi o mais limitante, dado que a programação continua sendo basicamente flanar pela cidade. E que tudo o que fizemos até agora nesta viagem tem a ver com os desdobramentos da chuva.




Por culpa em parte do meu francês risível, em parte de minha torcida para arranjar alguma coisa bacana e gratuita para fazer, fomos à FNAC local atrás de um pocket show de um cantor belga esquisitinho que na verdade era uma tarde de autógrafos de um escritor belga esquisitinho. Para antes termos nossos bolsos depredados em 18 euros por 3 doces de uma padaria meio metida, e depois termos que ficar 2 horas fazendo hora embaixo de chuva até a abertura do restaurante que escolhemos para comer o prato típico local, que a patroa não sabia qual era mas queria comer. Com um molho adocicado do qual ela achou que provavelmente nem ia gostar, mas queria comer. E então chegar ao restaurante e descobrimos que este abria meia hora depois do que estava escrito em seu site. E a gente aqui sentadinho na sarjeta, molhados, tomando vento frio, esperando esta merda abrir.



E aí à noite, quando nada mais há para fazer além de ir pro hotel brigar, a chuva para. E nem dá pra fazer as pazes no nheco-nheco depois, porque o quarto não tem cortinas.