sexta-feira, 25 de outubro de 2013

25/10 - Bottrop (Movie Park)

E hoje é dia do meu outro ritual anual. No meu primeiro maneirismo, me torno um religioso, ou ao menos um herege em pele de crédulo, e dou aquela comidinha gostosa e sensual no corpo de Cristo. Assim, chegando silencioso e insidioso por trás, quando ele menos está esperando. Já fui católico em vários anos, fui crente ao menos uma vez na vida, e botei Cristo na boca ao som de black gospel numa igreja de negão.
Hoje, desafiando o que vejo no espelho e sinto na alma, me torno criança por um dia, e aquele senhor flácido, com barba esbranquiçada, entradas na testa e meio brocha dá lugar a um senhor flácido, com barba esbranquiçada, entradas na testa e meio brocha dentro de um carrinho de montanha russa. Fomos ao Movie Park, nome pouco inspirado para a versão alemã da Eurodisney. De cuja existência ficamos sabendo lendo o guia da Alemanha pirateado da internet, meio sem querer. O custo foi abrir mão de visitar Essen, mas deixo a algum outro brasileiro a tarefa de grudar um chiclete embaixo de um banco de praça ou igreja qualquer para marcar nossa presença.



E como é necessário muito talento para se foder o tempo todo, o dia começou bem. Ao comprar os bilhetes de trem até o local, que teriam nos custado uns 42 euros, mencionei por acaso nosso destino à vendedora, que disse então haver um bilhete integrado para o transporte mais o parque, que praticamente deixou o trem de graça. Não que faça muita diferença, porque raramente os cobradores têm vindo verificar se os compramos.



O dia correu com uma garoazinha chata na maior parte do tempo, mas sem maiores transtornos. O parque começou dignamente vazio, deu uma enchidinha um tempo depois, e, ao meio-dia, vaticinei que provavelmente a lotação do dia havia se estabilizado, dado que provavelmente ninguém chegaria já depois do almoço para pagar o mesmo e se divertir por menos tempo. Mas estava enganado. Ao longo do dia, aquilo foi ficando cada vez mais cheio de gente, como se fosse a lista de adolescentes que frequentaram o corpo da Ana Maria Braga com o passar dos anos. Às 8 da noite desistimos de nos acotovelar com os outros frequentadores nas ruas do parque, e muito menos pegar filas de hora e meia para dar uma voltinha de pouco mais de um minuto em algum brinquedo, e voltamos pro hotel. Saldo: 19 voltas nas várias montanhas-russas e congêneres. Provavelmente menos do que meu recorde de outros carnavais, do qual não me lembro de cór, e certamente muito menos que certo número cabalístico cuja referência descontextualizada neste blog não fará o menor sentido aos não-iniciados, mas me permitam ser obscuro aqui e ali.



E o enjôo ao ser chacoalhado de cá pra lá e virado de pernas pro ar é cada vez maior ano após ano... Assim como boa parte dos suficientemente idosos desenvolve intolerância à lactose, meu metabolismo também deve vir desenvolvendo uma progressiva intolerância a parques de diversão, me condenando a ser cada vez mais um velho que sai de férias para frequentar congressos, e não montanhas-russas.



Ah, e enquanto eu batalhava para não gorfar meu café da manhã na cabeça de algum alemão ao meu lado, desenvolvi minha mais nova teoria inútil: os parques de diversão são uma sublimação do nobre e legítimo ato de se masturbar. Vejam bem: os nomes e temas dos brinquedos variam, a decoração é contingencial, mas, em essência, todos os brinquedos se limitam a girar, chacoalhar, ir e voltar, ou entrar em algum túnel escuro e úmido. Lembra alguma coisa?


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